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Mostrando postagens de setembro, 2017

outras formas de usar os poemas

às vezes precisamos ser lembradas do óbvio. daquilo que o coração sente, mas a cabeça não se deixa convencer lembrar do descanso que o corpo pede do poema que a mão quer escrever mas a roda do mundo no looping eterno da rotina não te deixa parar e perceber entender aceitar. às vezes uma moça lida por outras moças com outros objetivos principais tem que te dar a famosa porrada no estômago (na verdade as porradas eram pra ser outras, no peito, no passado, na cara mesmo) pra gente parar e ver que a vida é simples mas é mais muito muito mais do que a roda do mundo quer que você seja e mais do que você tenta ser frustrada desesperada perdida por não ser o que querem pra depois (acho que só bem depois) pensar que você já vai se tornar o que os grandes querem, de qualquer maneira. e que o desafio mesmo é ser quem você quer ser estar de bem com quem você é nas relações humanas (e não nas desumanas) pra você e pros outros e que isso não é ser uma máquina e que o s...

Vende-se

meu primeiro chaveiro com as chaves de casa vende-se o quarto que me comprime em sensações que acompanhou minha solidão, os contatos puramente carnais, o morrer de amor e o completo desamor vendem-se amigos viajantes, viajados ou simplesmente bêbados ou que não moravam nesse quarto acolhedor e sentiam-se pertencentes em meio a postais, paredes coloridas, estrelas, espaço pequeno e bagunçado e muito cheio de informação vendem-se as primeiras comidas que protagonizei todas as palhas italianas e todas as bocas que aqui comeram-na matte com pipoca, café da tarde, hotdogs a importância de uma cozinha grande que pudesse comportar uma geladeira grande e um fogão grande e os pequenos grandes prazeres alimentícios vende-se meu lugar preferido de bate-papo (que ninguém nunca vai saber qual é, pois vende-se) e ainda vendem-se meus banhos de calor e conforto e fuga junto às músicas e meu talento pra cantora de chuveiro meus cabelos pintados em frente ao espelho, minha duchinha pr...

minha única autobiografia de leitora possível

Michele Petit me falou sobre como "a leitura é a arte que se transmite mais do que se ensina". Falou também das mulheres analfabetas contadoras de estórias, pequenos grandes pontos em seu "como resistir a adversidade ou a arte de ler" (ou vice-versa). Foi só então que me lembrei do que, na verdade, foi minha primeira e mais importante experiência de formação leitora: minha avó, semi analfabeta, me contando histórias. Quase toda noite, antes de dormir, eu deitava a cabeça em seu colo, depois de um longo dia de peripécias pelas ruas da baixada, e ouvia sua voz calma e bem humorada contando sobre a vida de três fadinhas irmãs, ou de um coelhinho que saiu da toca, ou da lagartixa que punha ovinhos na árvore. Provavelmente havia vários outros "ou", mas as que mais me marcaram e as que eu mais pedia repeteco eram essas três (sem sombra de dúvidas, mesmo depois de 20 anos). Todo dia ela alterava um pouquinho as histórias. Pulava uma parte, contava de um je...