todo período de tensão cíclica eu invento
de pedir pra minha avó recontar ou escrever as estórias que ela criava pra eu dormir (que sempre me mantiveram mais acordada, de bitucas abertas e muito atenta às mentiras transportadoras à realidade do mundo de infâncias a que todas as crianças deveriam ter direito) e que me chegam tempos depois em uma folha de rasculho com linguagem rebuscada de cartório atrás, escritas em garranchos, enfeitadas de erros gramaticais e ortográficos de quem mal fez até à quarta série - o que me lembra meu estarrecimento pertinente quando ouço do avô graduado ou mestre de alguém, mesmo que alguém famoso - e tão lindas, e a cada palavra com um S a menos, um U firme no lugar do L, uma risada não de escárnio, mas de alegria com a beleza que é poder e querer se expressar do jeito que pode, do jeito que dá, sem aflição medo ou vergonha, pudores ganhos por nós, envelhecidos. ou perguntar pro meu pai sobre quando ele me levava pra ver as estrelas para que eu pudesse dormir, tentando entender se isso...