eu amo o frio,
mas não amo pessoas dormindo nas ruas no frio
e nem gosto ver gente saindo do trabalho, cansada, enfrentando enchentes e águas sujas e perigosas pra chegar em casa
e nem das imagens dos casebres levados morro abaixo pelas tempestades
eu amo o frio,
mas não suporto sentir frio e não poder me proteger.
e por isso penso nos ossos pobres rangendo de dor, num encolher de pernas para achar abrigo neles mesmos,
no tilintar dos dentes gastando seus já fracos esmaltes,
nas extremidades do corpo, dedos dos pés das mãos nariz e orelhas como pedras de gelo, sem nenhuma sensibilidade
penso na roxidão de lábios antes pálidos, de unhas antes amareladas
nos olhos que choravam de desespero quando abriam-se, involuntariamente, e viam o que não queriam ver
e agora, se abrem-se, são em lágrimas congelantes, rapidamente secas
penso sempre nesses olhos que mal se podem abrir pois escondem-se das rajadas de vento que cortam mais que ponta de faca
nesses mesmos olhos que a tristeza já não abre
eu amo o frio,
mas isso não é de nenhum amor
porque não dá pra amar sem lembrar que existe passar frio
que não fazemos nem ideia do que seja (e também não queremos fazer).
então, por favor, não vamos amar o frio
quando estamos todos em nossos aconchegantes calores,
quando nossos umbigos estão muito bem, obrigado, debaixo dum casaquinho de pele
e o outro
não tem
nem um
cobertor
pra se esconder
de vergonha alheia
da gente.
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