Do que você é capaz? ou Relato de experiência com alunos autistas

 

Na semana que passou, um aluno autista de uma turma de pré I ficou na sala de inglês sem sua mediadora. Sentou no meu colo, segurou a gatinha de pelúcia "ginger", abriu um sorrisão. Coloquei-o ao meu lado, e nosso "circle" estava completo. Lá ele permaneceu, por um bom tempo, observando cada cor mostrada nos "flashcards" e ouvindo os nomes em língua inglesa.

Um outro aluno (pré II), com a mesma condição, no mesmo dia, começou a aula cantando, com toda a alegria que é de praxe e pronúncia admirável, a música de "Hello". Depois, todas as crianças sentaram-se para fazer uma atividade sobre sequência, com diferentes formas geométricas e cores. Ele também se sentou, então abri o meu livro e expliquei a atividade. Em meio a tantas crianças, uma delas pegou um giz de cera e, na tentativa de ajudar, disse que ia fazer para o amigo, pois ele "fazia tudo errado". Pedi para que entregassem o giz na mão dele, dizendo que ele faria do seu jeito e que estava aprendendo também. Orientei sobre como ajudar. Para a surpresa de todos - parece que nunca estamos preparados para acreditar de verdade na evolução - o aluno desenhou um quadrado, verde, bem delimitado, e um triângulo amarelo, respeitando perfeitamente a sequência esperada. Continuamos o trabalho e vieram círculos, triângulos, retângulos... Foi a página mais colorida de todos os livros que já vi. Os olhinhos das outras crianças brilhavam enquanto diziam, empolgadas: "Teacher, ele fez mesmo!", "Olha gente! Ele tá fazendo direitinho!", "Caramba Joãozinho, ficou muito lindo o seu trabalho!". E não paramos por aí: chamei um amigo, muito atencioso, que o ajudou a repetir, com muita didática, todas as cores em inglês.
Nesse momento, meu coração parecia que ia explodir da mais espontânea e genuína felicidade. Fui novamente lembrada por aquelas crianças que tudo é possível, e que o afeto é a mais linda das capacidades humanas.

Logo, me veio à memória também uma aluna do maternal II, que ainda não desenvolveu a fala, mas desenvolveu o carinho, a atenção e o respeito em todos que a cercam. Desenvolveu em nós uma sensação de que não só é possível, como também cada possibilidade pode ser uma vitória emocionante. Um dia desses, ela entrou na sala, segurou minha mão, me pediu um abraço e seguiu, bela e dançante, atrás de mim, se juntando às outras crianças, enquanto cantávamos nossa "Stop and Go song". A rotina me dizia que eu só estava mostrando a eles as cores e suas funções num sinal de trânsito e que, por sorte, finalmente, ela tinha se chegado a nós.
Agora, aquela aula me parece uma importante narrativa metafórica para nós, teachers, principalmente.
Na vida adulta, muitas vezes, aceleramos ao ver o sinal amarelo, numa tentativa de fuga ao sinal fechado que se aproxima - contrariando, aliás, o que dizemos às crianças. A luz amarela indica atenção, "slow down": desacelere.
No sinal vermelho, é hora de parar. Ultrapassar esse sinal pode ser muito perigoso. Nos resta aguardar, sábia e pacientemente, um sinal verde para seguirmos.
Cada dia mais eu aprendo que, assim como nas ruas, precisamos aprender a respeitar os sinais. Não somos nós que decidimos, eles simplesmente não abrem ou fecham quando queremos. Tudo acontece no tempo exato, necessário para que o trânsito flua tranquilamente, sem riscos, com respeito à vida. Afinal, os indivíduos e o percurso são muito mais importantes que toda a pressa de chegar.

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