autoajuda pra salvar os domingos

acordar a hora que o olho abrir, adivinhar a intensidade da chuva que cai lá fora só pelo friozinho e pelo barulho, sem abrir as janelas. claridade ideal que entra pelas frestas desse quarto que não é meu, e tudo que não é meu, também não é meu problema, ou minha vida, ou dia-a-dia, tudo que não é meu é uma novidade leve de não precisar me importar. não ir fazer o que eu não tô afim só pq tinha comentado. terminar de ler aquele livro que enrolei por meses. café da manhã com bolo de laranja e abacaxi, crepioca de queijo com banana, cafézin preto de minas. só faltou uma rede. ir à academia com tempo pra malhar a série inteira, rindo sozinha com podcast de depressão engraçado, sem precisar me comunicar com sorrisos e olhares simpáticos demasiados, porque ninguém vai malhar domingo de chuva - o melhor dia pra malhar. banho quentinho, lento, gostoso, acalanto, água correndo cabelo pescoço tronco pernas abaixo. solinho descompromissado no ukulele, me ouvindo só pra mim. comidinha de mãe congelada, camarão, gerimum, batatinha e ovo, que a vida é boa com mistura. brownie de chocolate da Nema de sobremesa. olhar viagens, passagens, coisa boa de lembrar que existe muita vida que ainda me apetece viver, e que posso, além do mais, mesmo que não o faça. liniker sem tristeza de não ir ao show, porque bom mesmo é baixinho em casa mesmo, gosto de cheiro no cangote. aprender a teoria do desenho de uma flor num curso de pintura orgânica que comprei e esqueci. tentar ver um filme sem sucesso, então ler mais um pouquinho. somente o necessário, um pouco extraordinário, no celular. gatinhos em paz, se lambendo. tudo exatamente como tem que ser quando a vida tá boa. 

amor, cuidado, aconchego, com prefixo “auto” e adjunto “de domingo”. te amo, dominguinho bom. pena que acabou. 

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